Não sei muito da sua infância nem da idade adulta. Que era o segundo de 6 irmãos e desde cedo teve de trabalhar. De todo este percurso conheço apenas algumas das histórias que me foram contando, como quando se escondia na sala de música para não ir às aulas por não gostar da professora. Sei que passou por Peniche, pela Amareleja e pelo Pinhal do Concelho antes de regressar definitivamente à sua vila de Canha. Fez de tudo um pouco, mas penso que a carpintaria era a sua verdadeira vocação. E as construções com conchas e búzios apanhados em Peniche, as construções que guardo e quero guardar comigo para sempre.
Pequenino, é a prova viva que os Homens não se medem aos palmos! É provavelmente a pessoa mais paciente que alguma vez conheci. Emociona-se com facilidade, como eu. Sempre calmo, não se mete com ninguém que não se meta com ele. Não mostrava muitas vezes o seu sentido de humor, mas quando o fazia não deixava ninguém indiferente. Nem o sentido de humor nem a cor dos olhos, que fazem inveja a qualquer pessoa!
Marcou-me desde muito cedo, antes mesmo de eu poder perceber que já o tinha feito.
Todos os dias ia para a fazenda. A fazenda para onde me levava e onde me deixava brincar enquanto trabalhava. Outras vezes ficava só a brincar comigo, como nas manhãs em que ia com a avó fazer análises e ficava em nossa casa e era obrigado a jogar a todos os jogos que eu tinha, sem nunca me dizer que não queria.
Adorava ver televisão. Os filmes de domingo à tarde, depois da sesta, touradas, talvez por sempre ter ligado de perto com touros e com cavalos e os jogos do nosso Benfica! E agora percebo o quanto lhe deve ter custado ver alguns jogos, ele que viu jogar nomes como Eusébio, Torres, Chalana e viu um Benfica que ganhava sempre! Punha alcunhas a todos os jogadores, menos aos preferidos dele... Tenho pena que já não veja jogar este Benfica, ia adorar com toda a certeza!
Fui crescendo, e tudo isto se ia repetindo, as tardes de televisão, as noites a conversar à lareira e nunca pensei que isso pudesse um dia acabar. Nem o nosso ritual de Natal… Desde que me lembro, ano após ano, ia comigo e com a minha mãe, e depois a minha irmã, procurar os melhores e mais belos pinheiros para fazermos a nossa Árvore de Natal. E depois, procurar o musgo mais verde, que saltava mais à vista, para que o nosso presépio ficasse bonito. Hoje já não consegue, por causa da doença e sem ele este ritual não é igual, perdeu uma parte da magia.
Ensinou-me tanto… Marcou-me ainda mais quando, no último fim-de-semana antes de ir para a Universidade, me fui despedir e não me disse nada como os “tem cuidado e alimenta-te bem”… Acho que não foi capaz, só me abraçou, o abraço mais forte que me tinha dado! Chorou e pôs-me a chorar também, como um miúdo pequeno.
Todos na família querem ser como ele e um dia, ainda antes de estar doente, disse com o maior dos sorrisos “O único que é parecido comigo é o R.!”. Nunca nada me deixou tão orgulhoso!
Nunca lhe perguntei se foi feliz, mas espero que sim!
Não sei o que vai acontecer a seguir, mas penso que é esta a melhor prenda que lhe posso dar, porque o Manelinho passou por aqui, e a sua história merecia ser contada!